Nataly Volcati é socióloga, artista e pesquisadora capixaba, nascida e criada em Vitória/ES, às margens do Rio Santa Maria, no território do manguezal. Bacharel em Ciências Sociais com ênfase em Sociologia Urbana, foi premiada como "Socióloga do Futuro" no 21º Congresso Brasileiro de Sociologia. É especialista em Gestão Cultural pela CELACC/USP e pós-graduanda em Cidades Sustentáveis pela ESESP. Autora do livro "Territorialização da Negrura" (2026), publicado pela Editora Segundo Selo, sua trajetória articula pesquisa acadêmica, produção artística e gestão cultural com uma lente racialmente crítica. Atualmente é gestora da OSC "Outros Mangues e Pinguelas", organização focada no fortalecimento e regeneração de inteligências territoriais por meio da memória e da produção cultural. Como pesquisadora-artista, Nataly integra sociologia, arte e cultura como ferramentas de interpretação e transformação social, desenvolvendo projetos que conectam corpo, memória, território e futuros possíveis.
mas por trás dos títulos, sou um ser sensível que se dedica a uma pesquisa de vida que traça uma jornada íntima pela investigação da identidade, do comportamento e da memória.
rio, mangue, manga, mar, mata atlântica e lixo. no grosso, é disso que sou feita. cresci sendo insular, mas nunca ilhada em minha própria ignorância. a capital Vitória/ES, onde nasci, possui muitos ecossistemas e pontes, o que permite um diálogo constante entre várias formas de vida; essa configuração territorial reflete algo muito caro sobre mim: amar tecer conversas - ok que quem já conheceu os capixabas pode torcer o nariz com essa conclusão... dizem que somos muito fechados e ruins de conversa (mas ninguém entende que nós gostamos é de intimidade!).
foi nesta cidade, povoada por muitos pássaros que transformaram nossos sotaques em cantos assobiados, onde construí minha voz.
assim como numa dramaturgia, esse é um lugar de grandes diálogos que formaram e ainda formam quem sou. palco dos enredos que minha família viveu para me fazer nascer, é nesses e a partir destes cenários-paisagens sobre o qual dedico minha pesquisa de vida em torno do território, da identidade, da família, da comunidade, da memória, corpo negro e do amor.
reconstruir a ligação e os sentidos que constrõem a essa peça-pesquisa exige uma abordagem multilinguagens que se expressa com 7 atos em distintos formatos artísticos, são eles:
ato 1
— trabalho científico "Família: A Intimidade da Não-Verbalização entre Pais e Filhos", 2019.
antes de saber o nome das coisas, aprendi a ler o não-dito. na universidade, vesti o método etnográfico como uma pele emprestada e me misturei ao silêncio que habita os cômodos da minha família. gravei vozes que hesitam, escrevi entre linhas o que os corpos diziam sem palavras. foi a primeira vez que transformei aquele afeto em instrumento de pesquisa.
ato 2
em uma imersão promovida pela Velejo Terapêutico provocando minha estrutura olfativa, mergulhei no cheiro das minhas origens até que as cores começassem a me visitar. cada ente familiar se revelou num tom. peguei pincéis e algodão cru, e pintei uma carta aberta para as mulheres da minha casa — aquelas que me ensinaram que amor também é sobrevivência.
— díptico n1 "Carta Aberta às Mulheres da Minha Família", 2021, acrílica sobre algodão cru.
— díptico n2 "Carta Aberta às Mulheres da Minha Família", 2021, acrílica sobre algodão cru.
ato 3
a COVID-19 remexeu meu olfato e paladar, mas deixou uma herança estranha: em dias aleatórios, sem praia por perto, eu sentia cheiro de mar. foi dessa inquietação que nasceu uma letra e melodia, como quem conversava com o vento...
— composição musical autoral "Encontro", 2021, 3min58s, voz e violão.
ato 4
— dramaturgia "Silêncio, ou Coração Inundado de Palavras", 2022, Maré Editora.
perdi minha avó em 2021 e ganhei uma dramaturgia em 2022. escrevi sobre duas mulheres se confundindo atravessadas por uma história que não escolheram, mas carregam. como parte do processamento do luto, descobri que estava falando de dores das quais eu herdava.
ato 5
— projeto cultural "Outros Mangues e Pinguelas: Acervo das memórias sociais do bairro Grande Vitória" disponível em <https://www.outrosmanguesepinguelas.org>, 2023, fomentado pela Lei Paulo Gustavo com recursos Funcultura da Secretaria de Cultura do Espírito Santo.
antes de falecer, minha avó me contou sobre os movimentos de moradia da nossa família. eu sonhei em fazer um livro, mas o território quis outra coisa. com vizinhos, parceiros e um webdocumentário, abrimos o baú das memórias sociais do bairro Grande Vitória — fotografias de família, jornais amarelados, 30 vozes registradas. decidi honrar os mais velhos, virou acervo.
ato 6
noutra música, sem querer, escrevi a descida da minha avó do morro Forte São João e minha própria geografia de pertencimento. sou filha do rio e da raiva, condicionada à vida no Grande Vitória. esta canção tem só um minuto. cabe tudo.
— composição musical autoral "Elegia Firmino", voz, 1min, 2024.
ato 7
sou a última criança da minha família nuclear. isso significa que sou também a memória que resta da ramificação familiar da qual faço parte. juntei colagens, desenho, técnicas mistas, restos de afeto e um desejo bruto: construir um dossiê que seja tempo de volta para a Nataly criança e ponte para os que ainda vão nascer. um ato de compensação.
— scrapbook com colagens, desenhos e técnicas mistas material visual, 10p., 2025.
ato 8...