Beatriz Nascimento dirá em um dos ensaios contidos no livro organizado pela Editora FIlhos da África, Beatriz Nascimento: quilombola e Intelectual (2018), sobre a necessidade das pessoas negras colocarem seus inconscientes para jogo, deixando que se eles se expressem para daí trabalhar sobre essas expressões. Para que seja possível compreendermos a nós mesmos conforme nossas subjetividades, nossos íntimos, nossos particulares. Chegando, assim, mais próximos de descobrir o que é realmente o povo negro brasileiro, longe da representação "exótica" que nos atribuem. Então, quando percebi que escolhi realizar isso, primordialmente através do ato da escrita, consegui perceber o encontro poderoso entre Beatriz Nascimento e Conceição Evaristo naquilo que Conceição vai nomear como escrevivência - ato de escrever e compartilhar vivências pessoais a fim de, não somente inspirar o hábito da leitura e da escrita, mas, principalmente, ampliar sentidos que respeitem nossa diversidade social. Uma ação que esta escritora vai julgar fundamental principalmente para as mulheres negras.
Há aproximadamente 1 ano (em 2020, no tempo relativo à escrita deste texto), no início da pandemia, tenho feito meus próprios cadernos e me comprometido com o hábito de escrever. O primeiro caderno eu meio que “nomeei” de caderno da Lua porque, na primeira página, escrevi algumas linhas de uma música que eu estava pensando em criar como uma espécie de oração à Lua (“lua mingua de mim a falta de coragem; a falta de confiança [...]”). Percebi que estava ali criando uma espécie de portal para “expurgar” - como dizem ser a função da fase minguante da Lua - meus processos emocionais. Neste caderno fui escrevendo mapas pessoais que fiz com ferramentas esótericas de autoconhecimento (astrologia, tarot, petit lenormand, oráculo mãe terra, cabaça olfativa, numerologia etc.) e fui escrevendo pensamentos que insistiam em martelar na minha cabeça. Desse modo, fui construindo uma espécie de caderno dedicado a demarcar etapas de processos psicológicos, emocionais e espirituais.
O caderno da Lua não foi meu único caderno, mais outros 7 surgiram desde 2020. Cada um com um direcionamento específico (para registro de reuniões de trabalho, para registro de aprendizados em cursos, para registro de percepções de leituras etc), mas, sobretudo, para serem residências dos meus pensamentos. Vale fazer um adendo, aliás, que eu sou graduanda de Ciências Sociais (que comporta as três grandes áreas: Antropologia, Sociologia e Ciência Política), então, desde que entrei na universidade, em 2019, eu tenho sido atordoada com uma carga de leitura extensa e uma incessante pressão por produções escritas. A escrita dedicada a mim e aos meus processos foi uma espécie de válvula de escape.
Existem muitas coisas que escrevi e somente meses depois fui compreender porque tinha escrito... ou nem isso, porque às vezes (e até hoje) tem coisas que ainda não compreendi. Mas o importante é que elas estão registradas, pois podem, assim como ocorreu com outros escritos, serem enfim compreendidas, continuadas, analisadas e, sobretudo, conectadas. De modo a me auxiliar a me compreender como continuidade, não fragmento. A escrita se estabelece, então, como uma ferramenta para que eu sobreviva e faça viver as várias de mim que me habitam consciente e inconscientemente.
O caderno da Lua foi iniciado em junho de 2020 e somente em dezembro de 2021 eu finalizei as páginas (com muitos outros papéis avulsos que fui adicionando entre as páginas). Então, escrever também me auxiliou a compreender a importância de trabalhar com aquele que não gosta quando fazem as coisas sem ele: o Tempo. E, assim, ciclo após ciclo fui me registrando e me descobrindo. Consolidando-me como meu próprio oráculo. Então, descobri que estava realizando com o que parece uma súplica geral entre personalidades negras que tenho como referência: a necessidade de a pessoa negra se autoperceber, para perceber o mundo. Pensar com a própria cabeça, como diz Amílcar Cabral, quebrando com o processo de negação do direito da pessoa negra de ter e dar vazão a um inconsciente, a uma subjetividade, como Isildinha Baptista identificou em A cor do insconsciente: signifcações do corpo negro (2021). Eis que surge a ideia do blog como meio para amplificar o apelo a essa necessidade.
Minha contribuição, entretanto, não é exatamente como a de Ubiratan Castro de Araújo, que decidiu compartilhar Sete histórias de negro (2006) através de contos que lhe foram repassados pela família para cumprir, como negro, com a sistematização das suas próprias lembranças. Cumprir minha obrigação de sistematizar minhas próprias memória hoje, pode ser oferecida da melhor maneira com este blog. Com o compartilhamento dos meus processos pessoais de assimilação do mundo, através da sensibilidade física, emocional e mental, através dos cinco - ou mais - sentidos. Não pretendo falar [somente] de negritude, nem tampouco somente de racismo. Mas também sobre isso. O que eu quero é, sobretudo, compartilhar minha sensação e reflexão sobre o mundo, considerando as coisas que me atravessam e me habitam.
E, embora Conceição Evaristo vá dizer que a escrevivência não é uma ação de fazer dormir os escravocratas (como fizeram antigamente as Mães Pretas) mas sim uma ação para fazê-los acordá-los de seus sonos injustos, minha escrita não se direciona às reações das pessoas da casa-grande. Pouco me importa se eles dormirão ou se acordarão. Meu interesse é me fazer acordar e me reconhecer de maneira a honrar aquelUs que vieram antes de mim, estes que possibilitaram minha existência. E esse exercício, pelo menos para mim, nada mais é do que um caminho para dentro, afinal, todas e todos estão dentro de mim - e também "fora", na fisionomia ou no comportamento. AquelUs a quem pretendo afetar e provocar reações somos nós mesmEs, negrEs. E, por isso, quando escrevo, eu falo apenas por mim, mas através de mim muitEs podem vir a ter algo a dizer, por isso, nunca é só sobre mim. E também nunca é sobre só o presente.
Este blog é uma oferenda de agradecimento, didicada principalmente a isto: compartilhar [auto]reflexões. Aqui você encontrará conjuntos de escritos [auto]analíticos com temas variados em diferentes formatos, sejam eles: depoimentos, poesias, resenhas, resumos, artigos, crônicas, ensaios etc. Portanto, espero que, como propõe Audre Lorde, com a coragem de Transformar o silêncio em linguagem e ação (2019), que em cada texto, cada relato e a cada autodescoberta, eu possa lhe proporcionar uma boa viagem, com o intento de que os textos aqui publicados sejam os ventos dessa jornada que vão desvelando os caminhos que constroem o mapa sem-fim que é o nosso corpo.